Vamos falar de coisa séria?

13:04:00

Ilustra por Carol Rossetti

Estava voltando da faculdade esses dias e vi uma moça com um cabelo muito longo e crespo. Sentei-me ao lado dela e me segurei, porque tive muita vontade de virar para ela e lhe dizer o quanto o cabelo dela era lindo. Não sei por que a gente tem dessas. Tão fácil criticar, mas difícil soltar um elogio. Não que ela precisasse do meu elogio para se sentir mais bela, afinal, quando vejo alguém com o cabelo natural, imagino mesmo que a pessoa tem total certeza de sua beleza real, mas toda mulher tem dias em que se sente mal, estranha, feia e etc e tal. Imagino que o elogio serviria para ela lembrar que apesar dos olhares e insultos que ela já recebeu e/ou recebe por conta de seu cabelo, são de gente que ainda tem os olhos e a 'mente alisada' pela enxurrada de padrões disseminados pela sociedade.

Nesse dia parei para pensar em mim também. Na minha infância a questionar a  Deus por que eu tinha nascido preta "café pelé/pilão" (como me chamavam na escola), de cabelo "de bombril". Questionava por que eu não tinha nascido mais clarinha como minha irmã mais velha. Ou por que meu cabelo precisava ser tão cheio, do tipo "que dava para dar e vender". Chorava pois meu nariz não era fino e minha boca menor. Uma vez cheguei a colocar prendedor de roupas por alguns minutos para ver se diminuía, porém o resultado final era um aumento, tanto de dor física quanto da tristeza que eu carregava por não me aceitar.

Embora ainda exista muito preconceito, hoje os insultos voltados à mim são mais distantes. É tudo mais velado. Quando vejo falarem de bulliyng atualmente, me pergunto se o que eu sofri tem nome pior. Pois todos os apelidos nunca mexiam com meu intelecto, afinal era aluna exemplar, nunca era com a minha classe social, embora fosse pobre. Sempre mexiam com algo que eu nunca poderia mudar. Mexiam com minha cor, com meu cabelo, com minhas características herdadas e que antes de todos eu deveria amar.

Essas coisas me fizeram por vezes desejar ter nascido branca. Mas não havia como remediar isso. "Sorte mesmo é do Michael Jackson, teve uma doença e pode escolher ficar branco" lembro de ter dito uma vez. Ledo engano, tanto das informações equivocadas, quanto da mudança que ocorreria em minha vida se eu pudesse ter o mesmo destino dele. Afinal tenho certeza que sua mudança exterior nunca apagou todo seu sofrimento ou o fez se amar como de fato ele era. E é isso que mais tenho pena. 

Não sei ao certo quando, mas houve um momento em que me amei. Amei minha cor que me deixa ficar exposta ao sol sem ficar vermelha e que me mostra mais jovem do que realmente sou. Amo meu nariz mesmo ele sendo de "coxinha" e minha boca ainda mais, afinal tenho botox natural para usar os batons de cores fortes que por tanto tempo me disseram que eu não deveria usar pois não combinava com a minha cor. E por fim, amo meu cabelo. O mesmo que comecei a alisar ainda com 6 anos de idade para diminuir o volume. Que eu alisava para que os garotos me achassem bonita. O mesmo que me fazia sair de casa com cabelo pingando e molhava sempre que tivesse chance. Esse que hoje me fazem amar ver outras meninas de cabelos soltos pela rua.

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Relutei postar isso aqui, mas depois me lembrei que esse é o cantinho em que falo o que penso, certo? E essas coisas, que em sua maioria nunca disse a ninguém, estavam latejando na minha cabeça. Espero que de alguma forma toque você que de alguma forma já se sentiu tão mal quanto eu...

beijinhos! 

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9 comentários

  1. É tão bom quando a gente se aceita do jeito que é! Da uma paz, uma tranquilidade... dá força pra gente fazer o que a gente quiser. É isso que eu penso: cada um pode fazer sempre o que quiser. Ninguém pode impedir :) Bonito texto, me fez pensar.

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    1. Pois é Gian, faz muito bem se sentir bem rs
      Obrigada, volte sempre!

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  2. Parabéns Pri, Deus nos criou lindas e tão maravilhoso quando nos descobrimos nEle, o quanto Ele se alegra quando agradecemos no lugar de criticar, quando nos amamos... e

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    1. Obrigada KIkinhaa

      Pois é, aprendi muitas coisas. Claro, ainda há coisas a aceitar, mas aceitei como Deus me fez.

      Beijos

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  3. LINDA! gostei muito de te ler!!!
    eu acho que não existe um tempo específico para "nos encontrarmos". pode acontecer na adolescência, pode ser depois de adulta, pode demorar anos... mas o que importa é que um dia a gente se ame. de verdade. muuuito bom saber que vc se ama. porque vc é muito linda. de verdade!

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    1. Exatamente! Demorou um pouco, mas graças a Deus me encontrei. O chato é que algumas pessoas nunca se encontram :(

      Obrigada :3

      VOLTE SEMPRE!!

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